Produção Científica - Artigos e Capítulos

Gestalt-terapia: uma psicoterapia do entre

Neste ano a Gestalt Terapia comemora 50 anos. Em meados do século passado, quando nasceu como uma dissidência da psicanálise trouxe como novidade a mudança de paradigma filosófico e as teorias de fundo da Psicologia da Gestalt embasando uma nova “forma” de ver o homem, agora construindo seus significados na relação com o mundo. Fritz Perls e seus parceiros neste novo diálogo teórico estavam à frente de seu tempo, muitas das idéias colocadas no esboço inicial da teoria continuam absolutamente atuais no início do novo milênio.
A Gestalt Terapia é uma psicoterapia que pela forma de abordar o sujeito e estabelecer a relação terapêutica e o curso da mesma se insere nas psicoterapias de base fenomenológico-existencial. Está atenta ao revelar-se contínuo do ser, não imprime significados ao outro e trabalha basicamente na esfera do “entre”, isto é, é no “como” a relação se estabelece e se desenvolve que o trabalho terapêutico vai se construindo. Paralelamente acompanha as transformações do mundo pois o mundo vem junto com a pessoa, na sua história, seus significados, suas dores, suas alegrias, e novamente todas as suas relações e a forma de funcionamento dentro delas afloram com espontaneidade e vida.
A dinâmica dos relacionamentos tem sofrido transformações rápidas em nossos dias, em função da própria característica globalizadora do final do século. O que vemos são relações rápidas, superficiais, manipulativas, competitivas, cada um cuidando de suas coisas com pouco tempo para olhar e ouvir o outro e se relacionar de verdade, incluindo realmente este outro. Psicoterapias de casal, de família, de grupo, sendo cada vez mais procuradas. Parece que as pessoas não estão felizes e estão querendo e buscando formas saudáveis de se relacionar. Prestar atenção nisto nos abre uma perspectiva rica e interessante de trabalho.
A Gestalt Terapia tem em seu suporte teórico e metodológico uma base consistente para este trabalho, pois busca justamente restabelecer o fluxo saudável das demandas individuais em relação ao meio e naturalmente ao “outro”, favorecendo o “contato” como forma essencial e saudável de estar no mundo.
Como isto acontece na experiência clínica? Em minha experiência, a “atitude gestáltica” diante do mundo e do outro está presente desde o primeiro momento do encontro com a pessoa que chega até mim. Recebo esta pessoa como alguém único, cuja presença já é uma revelação do seu ser singular. Todo o seu corpo, sua linguagem e expressões constituem seu “ser-no-mundo” naquele momento. Fico atenta e vou ao encontro deste ser para iniciar mais uma de suas múltiplas relações acreditando que ambos sairemos diferentes desta experiência.
Esta atitude diante do outro vem da crença de que é a partir de sua singularidade que a pessoa constrói suas redes de relações e significados com o seu mundo. De que o homem é um ser-no-mundo e só pode se compreender em sua relação com o mundo, é um ser-com, um ser em companhia de outros seres, em relação, estando sempre envolvido na relação com o mundo do outro, numa dialética na qual cria o mundo ao mesmo tempo em que é criado por ele. É um ser situado, é “aqui” num sentido auto-localizado e auto-consciente.
Na relação terapêutica, entro no processo junto com o cliente, o processo da vida, da troca, numa tentativa de juntos percebermos e trabalharmos o que não está bem em sua vida e também de participar de sua existência, estando próxima em todos os momentos, para que ele se sinta acompanhado. Me relaciono com ele de acordo com sua maneira de existir assim como ele também participa da minha maneira de existir. Estou ali enquanto sujeito, como sou, com todas as minhas possibilidades e limitações também. Estou ali como um “Tu” e pela minha presença humana possibilito ao outro se apresentar como um “Eu”, sincero e espontâneo. Busco um existir autêntico, um frente ao outro e um com o outro, envolvidos, se tocando reciprocamente como seres humanos.
Estou ali como profissional e como pessoa, me tornando presente a ele, face a face, numa proximidade vivencial básica, atuando dialeticamente entre o Eu-Isso e o Eu-Tu, entre o pensar e o existir na relação, entre o agir sobre o cliente e o ser-com ele.
Este movimento acontece num vir a ser que nunca se completa, num movimento contínuo, alimentado pelas potencialidades em constante atualização, sempre em aberto, mutante, diferente a cada dia, revelador e novo.
Neste contato acompanho o seu modo de existir a cada momento, permitindo-lhe a escolha do próximo passo para que possa vivenciar a liberdade e a responsabilidade sobre si e seu viver.
Nosso encontro se constitui num encontro existencial.
A abordagem fenomenológica-existencial na psicoterapia está fundamentada na relação com o outro, intuitiva, espontânea e flexível, que é inerente ao ser humano e acontece antes de qualquer questionamento teórico. Esta abordagem nos fornece uma teoria da relação terapeuta-cliente, orientando-a eticamente. Nos dá uma base da concepção de homem e das relações humanas bem como um método de trabalho.
Enquanto método a Fenomenologia surge como uma contestação a um ideal de conhecimento que dizia ser o conhecimento uma representação que apenas a consciência poderia fazer. Numa tentativa de encontrar a justa medida da relação consciência/objeto Husserl cria uma filosofia onde não há um sujeito sem um objeto e um objeto sem um sujeito. Coloca o objeto de volta no mundo da experiência do sujeito. Sujeito e objeto não existem independentes um do outro. O homem é um ser consciente e a consciência é sempre intencional, sempre consciência de alguma coisa. Também o mundo não é em si, mas sempre um mundo para uma consciência.
Sartre, falando de uma teoria fenomenológica das emoções, nos sinaliza que não existe emoção sem que seja emoção de ou por alguma coisa, pois a consciência emocional é consciência do mundo. A pessoa que tem medo tem medo de alguma coisa, a emoção volta a todo o momento ao objeto e se alimenta dele. A pessoa que sente raiva sente raiva em relação a alguém ou alguma coisa. Quer dizer com isto que o indivíduo emocionado e o objeto causador desta emoção estão unidos por uma síntese indissolúvel. A emoção é mobilização para a ação, sua emergência informa o que está acontecendo no meio e prepara a pessoa para agir. A emoção faz parte do encontro do si mesmo com o mundo.
Entendemos o sujeito como experienciando dentro do mundo, sem dentro e fora. A experiência de ver alguma coisa, por exemplo, não é separada do que está sendo visto. Tudo acontece na fronteira de contato onde a experiência resulta tanto de quem experimenta quanto do que está sendo experimentado. O gosto da maçã não está nem na maçã e nem na boca, mas no encontro das duas.
Esta concepção imprime um enfoque relacional ressaltando que existe sim relação entre as partes, e mais, o interagir modifica as partes. Cada gesto, fala, emoção se constitui num contato, portanto toca as duas partes implicadas no mesmo e nesta interação ambas as partes se modificam.
A fenomenologia traz uma nova postura diante do mundo em sua tentativa de “voltar as coisas mesmas” e percebe-las como “novidades”, como se não as conhecêssemos, sem olha-las através de teorias científicas ou filosóficas, preconceitos, juízos de valor, classificações, etc., ficando com a experiência imediata, partindo de uma espécie de inocência radical, voltando ao mundo tal como ele é dado imediatamente à nossa consciência. Perceber o mundo de forma espontânea, pré-reflexiva, onde pela intuição o objeto é captado em sua totalidade. Voltar-se para o fenômeno, que está no mundo vivido, na experiência básica do ser humano.
Com nosso cliente “voltar as coisas mesmas” é estar atento ao óbvio, o aparecer, o manifestar-se, ficar com nossas percepções exatamente como acontecem, acompanhar o suceder dos fenômenos, um após outro, estar aberto ao momento seguinte como um novo momento, e não precisar ir além disto, porque tudo já está aí, tudo é o que é. Também não nos cabe emitir julgamentos, pois nossa única referência para a realidade dada está em nossa percepção e não em conhecimentos anteriormente adquiridos. O que percebemos é fundamental e o mais próximo que podemos chegar da verdade.
Porém, o que percebemos não é uma realidade objetiva, e sim o meu próprio existir diante do mundo englobando tanto os meus pensamentos quanto os meus sentimentos. É importante entender que percebemos o mundo físico, os sentimentos, as outras pessoas, as idéias, os valores, com “nossos olhos”, sob a nossa perspectiva, e que para cada situação dada existe outra “visada”, outra possibilidade de apreender aquela experiência, diferente ou além do que percebemos. Cada objeto, cada unidade de experiência e cada sujeito podem ser percebidos através de vários ângulos, perspectivas ou aspectos. Termos esta consciência faz com que a realidade se torne uma fonte interminável de novas descobertas, aguçando a nossa curiosidade. Pensar fenomenologicamente é estar consciente que sabemos o que percebemos, mas que pelas nossas limitações humanas estamos sempre no limite deste saber e na busca do desconhecido que se descortina a cada instante sob nossos olhos. Este é o olhar fenomenológico, um olhar para a novidade do outro, para o que se revela e que ainda não sabemos, para este vir-a-ser constante, sempre na fronteira do aqui-e-agora. A verdade do outro é sempre incompleta e interminável num processo de tornar-se.
Este espírito fenomenológico dentro da relação terapêutica faz com que vivamos uma experiência rica e fascinante com nosso cliente.
Na Gestalt Terapia além da ênfase nos conteúdos estamos orientados principalmente para o sujeito que percebe e experimenta e em como isto acontece, isto é, de como toma consciência de si mesmo e de seu mundo. Na experiência clínica constatamos que a pessoa que nos procura chega em sofrimento, interrompida em seus processos de contato, muitas vezes não consciente de seu funcionamento e da relação entre sua intenção e o seu existir no mundo. O que vamos buscar no trabalho terapêutico é que todo o ser, o agir e o falar do cliente estejam diretamente ligados à sua intenção, pois qualquer coisa que se interponha entre a intenção e o agir se constitui numa interrupção, numa resistência. Exemplo disto são as interrupções do fluxo da fala, quando o cliente para para pensar, avaliando o que vai dizer, criando divisões, retirando a vida e a espontaneidade de sua comunicação.
Trabalhamos no sentido de restaurar o continuum de awareness, entrando na situação, experimentando e trazendo à consciência o óbvio, o que é, fazendo uma descrição detalhada dos fenômenos implicados. Buscamos o insight no próprio processo de awareness, dando ênfase à experiência imediata aqui-e-agora e colocando em parênteses o que não pertence a este vivido imediato. Fundamental é criar novas formas de experienciar e novos usos da energia presente. A situação terapêutica provê o suporte necessário para o cliente se perceber, fazer algo novo, enfrentar seus medos e aprender a fluir em sua experiência.
Trabalhamos com o conceito de fronteira de contato, ou seja, com a compreensão de que não vivemos aqui dentro, nem lá fora, mas no entre. O que existe é o contato, não um mundo objetivo, nem um mundo subjetivo, mas um mundo que só é mundo à medida que nos trazemos para ele. Por exemplo, quando falo, a fronteira de contato é formada pelos meus lábios e os sons que emito e os ouvidos de quem está ouvindo. O outro está incluído o tempo todo para que a experiência aconteça. Estamos atentos a este “entre”. É neste “entre” que toda nossa condição humana é feita, não só por um, mas pelo ato de um encontrar a alteridade de si mesmo no outro.
Esta atitude fenomenológica vivida no contexto terapêutico supõe a importância da existência do “encontro”, através do qual tudo o que acontece e os conteúdos que emergem dali só podem ser compreendidos no contexto desta relação. Encontramos na abordagem dialógica de Buber uma base filosófica para esta atitude, entendendo o diálogo como diálogo com o outro enquanto “outro” e como uma específica forma de contato que possibilita a “awareness”.
É neste espaço do “entre” que o ser de cada um germina e se transforma. E em algum momento surge o contato genuíno, quando a pessoa estará realmente interessada em si e também no terapeuta, interessada num outro genuinamente. Instala-se então a mutualidade e neste momento o cliente estará pronto para fechar esta relação e abrir outras no constante fluir de seu ser no mundo.

GRANZOTTO, Rosane Lorena. “Gestalt-terapia: uma psicoterapia do “entre”. Jornal do CRP SC. Ano 4, nº 40, fev. 2001, p. 11.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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SARTRE, J.P. Esboço de uma teoria das emoções. Lisboa: Editorial Presença.
YONTEF, G.M. Gestalt Therapy: Clinical Phenomenology. The Gestalt Journal, vol.II, n.1.